COMUNIDADES DE VIDA E ORAÇÃO - Vigiai, porque não sabeis a hora em que virá o Senhor (Mateus 24,42)
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10/02/2012
MESA CELESTE
 
“A Eucaristia, sentencia João Paulo II, é, sobretudo, um sacrifício (...) O mistério eucarístico, separado e sacramental, deixa simplesmente de existir como tal” (Domin. Cenae 9.8).

          O Papa sintetiza um cúmulo de definições do Magistério, de catequeses dos Padres da Igreja e dos comentários bíblicos da mais autorizada teologia católica. Quando se repete que a Missa é o mesmo sacrifício da Cruz, diferindo dele apenas porque o apresenta sob as espécies do pão e do vinho distintamente consagrados, não se faz mais do que afirmar que nela se não dá uma imolação nova e tão pouco uma nova imolação e da Oblação da Cruz: a liturgia eucarística não faz senão pôr o Calvário no nosso altar.

          Isto quer dizer mesmo que a Igreja não oferece um “seu” Sacrifício distinto do de Cristo, limitando-se a participar na Imolação do Calvário, a única que na realidade expia e redime. De si própria ela oferece apenas tudo quanto é necessário para a sua participação, que é depois a liturgia eucarística instituída pelo próprio Jesus naquilo que se refere ao essencial do rito.

          Ora, confundir-se-ia a verdade do dogma eucarístico, supondo que a Missa fosse apenas SACRIFÍCIO: a Igreja, seguindo a Tradição Apostólica, ensina que é também e necessariamente, BANQUETE. Trata-se, porém, de um banquete apenas comparado aos banquetes humanos por analogia: no banquete eucarístico é oferecida ao crente uma MESA CELESTE, porque “o pão” de que se alimenta é o pão “VIVO DESCIDO DO CÉU”; “Pão” que passou a ser o próprio Corpo de Cristo, sacrificado pela salvação do mundo.

          Por isso, “o sacrifício e o sagrado banquete pertencem ao mesmo mistério, a ponto de estarem ligados um ao outro por um estreitíssimo vínculo” (Paulo VI, Euchar, Myser, 3/b).

          Uma vez admitido isto, a unidade do mistério “Sacrifício-Mesa” consente o precisar-se que a Mesa brota do Sacrifício porque imagem da comunhão de graça entre a alma e Deus, restabelecida pela Oferta da Cruz celebrada por Cristo como supremo ato de amor ao Pai e à humanidade pecadora. Por outras palavras: a consumação das espécies eucarísticas é o SINAL (símbolo) da sobrenatural assimilação dos fiéis a Cristo Crucificado, sua Cabeça, e é neste misterioso processo vital eu eles tornam a gozar (ou confirmar) a sua própria intimidade com o Pai.

          Por isso, apenas pela participação no Sacrifício de Cristo (celebrado sob as espécies do pão e do vinho) e pela conseqüente transformação mística n’Ele, é possível realizar a comunhão com Deus, prelúdio de vida eterna.

          “Mesa celeste”, por conseguinte, essencialmente diversa da mesa “terrena”. Nela, o “alimento” é o Corpo e o Sangue de Cristo, ambos realíssimos, mesmo num simples fragmento de pão e numa gota de vinho consagrados. “Alimento” insuficiente para alimentar o corpo, mas mais que abundante para saciar a alma, realizando a inefável comunhão de amor com Deus, em Cristo.

         Comunhão de amor iluminada pela fé, por sua vez sustentada pelos sentidos, pelos quais o fiel percebe as naturais propriedades do pão transubstanciado no Corpo de Cristo.

          É pela transubstanciação, de fato, que a Comunhão Eucarística é Comunhão com Cristo, Comunhão com Deus, Comunhão com o mistério da Sua Vida. O crente, pois, não se fica ou firma nas espécies sacramentais, objeto dos sentidos porque, na realidade, o impulso do seu pensamento atinge a Pessoa de Jesus. Se, comendo o pão comum, me alimento da sua substância, assimilada pelo organismo, através da percepção das suas qualidades sensíveis, não vejo por que razão não possa alimentar a minha alma, consumindo um “pão” que, apesar das aparências, já não é pão,mas o Corpo de Cristo...

          É evidente que o discurso apenas tem este sentido segundo a lógica da fé. Por conseguinte, negada a transubstanciação, a Comunhão Eucarística, que é comunhão com o Verbo-feito-carne, seria impossível; pelo que, falar de Mesa Celeste, não teria sentido algum. É intoleravelmente reduzido que alguém se firme apenas em alimentar-se espiritualmente de um pão-símbolo-de Cristo, e não de um pão-tornado-Corpo de Cristo...

          Este pressuposto pão-símbolo poderia ser alimento apenas para um homem que, em virtude da fé, prescinde do sensível; precisamente para aquele que não seria verdadeiro homem, que não viveria segundo as necessidades da sua natureza composta, essencialmente, também de um corpo, com as exigências e hábitos da vida humana e as suas insubstituíveis relações sociais...

          Jesus, segundo o dogma católico, preferiu ficar conosco segundo a Sua própria natureza humana integral que, pela transubstanciação, se oferece a todos, através do sublime simbolismo do “pão”. Que quer, pois, dizer receber a Comunhão? Como pode verificar-se o encontro dos fiéis com Cristo-Eucarístico?

          a) – Recebe-a só materialmente¸ aquele que é espiritualmente indigno dela, porque vive em pecado mortal. Ele, se realmente recebe Cristo, é também certo que O ofende, porque a Eucaristia foi por Ele instituída como sinal de amizade dos crentes com Ele e entre si...;

b) – A Comunhão é recebida apenas espiritualmente, quando o encontro é realizado apenas pela fé e pelo desejo dos fiéis, que acreditam na presença real de Cristo e não podem recebê-Lo também materialmente, apenas porque impedidos por circunstâncias involuntárias;

c) – Comunhão verdadeira e completa é apenas a sacramental, que corresponde a todo o homem, alma e corpo, entendimento e sentidos, estado de graça e efetiva participação na Mesa Eucarística, precisamente como a ele mesmo Se oferece todo-o-Cristo, na totalidade ou integridade da Sua constituição ontológica, ou seja, como VEBRO INCARNADO.

         Precisando um pouco melhor: receber a Eucaristia não significa fazer a comunhão, mas sim entrar em Comunhão com Cristo-Sacramentado; o que exige o concurso de TODO O CRISTO, acolhido por TODO O HOMEM:

         - de todo-o-Cristo sacramentado, ou seja, da realidade da Sua substância corpórea, com tudo quanto ela comporta por natural concomitância;

          - por todo-o-homem, ou seja, principalmente pela sua alma, pela sua inteligência, pelo seu amor e, consequentemente, pelo seu corpo, que inclui o conteúdo externo, como cordial adesão a uma liturgia que exige palavra e canto, auscultação e atenção, gesto de súplica e de adoração...; a psicologia humana obriga a uma tal interdependência entre a alma e o corpo, entendimento e sentidos... Ilude-se quem presume elevar-se apenas com a alma; reduz-se a uma marionete quem limita o culto ao comportamento do corpo... Evidentemente que a reciprocidade destas relações é inteiramente em benefício da alma, porque a Comunhão sacramental é encontro do espírito, contemplação do pensamento, abandono do amor.

          O culto externo deve servir, ou seja, subordinar-se ao interior, virado para a Pessoa do Verbo: e é por isto que o banquete eucarístico é mesa celeste, antecipação da Bem–Aventurança Eterna.

         Se esta “mesa” abre para a comunhão com Deus em cristo, e se a comunhão é diálogo da alma com Ele, que poderá então dizer a alma a Deus e Deus à alma? A Deus, não lhe resta dizer mais nada, uma vez que chegou ao ponto de fazer-se possuir por Cristo, segundo a Verdade do Seu Verbo e a física realidade da Sua Carne.

          Carne que envolve todo o mistério cristão, sendo Carne do Verbo gerado pelo Pai, e com Ele, a soprar ou exalar o Amor: a Eucaristia contém a Trindade. Com Jesus, está também Maria, que Lhe concebeu a natureza humana; está o coro imenso dos Anjos, a indeterminada multidão dos bem-aventurados, o inteiro universo dos corpos semeados pelo espaço infinito, com a sua história, com o seu mistério. Porventura não é Ele a Síntese pessoal de todo o criado e o criável?

          Mas o crente que O recebe pode e deve lançar-se para além do invólucro das espécies sacramentais até atingir e perder-se no “seio do Pai” e participar na Sua Bem-Aventurança.

         Por conseguinte, é com todo o Seu próprio Ser que Deus fala á alma, cuja correspondência ou resposta é formulada segundo todos os graus da vida interior.

         É o “Creio, Senhor!”, possível à criança e ao adulto, ao convertido e ao místico... Todos, no silêncio, podem recolher as capacidades da alma e ficar absorvidos num comportamento de feliz admiração, de adoração, de gratidão, de oferta.

          A Hóstia consagrada é a prova tangível e mais extasiante do Amor de Deus que, no Verbo, para além de Se fazer “carne”, se oferece como Vítima no Sacrifício que, sob as espécies sacramentais, atingiu os extremos confins da matéria bruta: a Eucaristia realiza a mediação contemplativa mais poderosa que todas as outras, porque as reassume a todas. Na Hóstia consagrada, o Tudo fez-Se nada...

          E é por este misterioso aniquilamento que mesmo o último dos fiéis pode sentir-se animado ou estimulado a abrir-se com Ele: conversar sobre a Sua vivencia terrena, relembrar triunfos e rejeições, bênçãos e ultrajes, alegrias inefáveis e tristezas morais...

         Qualquer poderá reconhecer e meditar no Seu agradável e misterioso olhar, no timbre da Sua voz, na amável ou amorosa majestade dos Seus gestos, nos sublimes momentos de intimidades vividos com Sua Mãe, com os discípulos, com os amigos...

          E poderemos também espiá-Lo, enquanto, de noite, mergulha na adoração ao Pai, no mais absorvido e solene silêncio da natureza.

         Penso que Ele Mesmo Se compraz em ouvir-Se relembrar, por quem Lhe recorda os Seus discursos, os prodígios, as controvérsias com os Fariseus, as horas de angústia, a suprema desolação da Cruz, como também a Sua vitória sobre o pecado e a morte...

          Comungar com Ele significa também contar-Lhe, com inteira liberdade, as nossas desventuras, os problemas, os erros, as esperanças... como teríamos feito, se tivéssemos tido o privilégio de O encontrar e viver com Ele na Terra, acolhê-Lo em casa...

          Porém, talvez com a nossa fé de hoje, teríamos mudos, com o coração cheio de comoções, absorvidos no contemplar simplesmente o Seu Rosto, fixar-Lhe o olhar, para depois desatar a chorar e confessar-Lhe a nossa imensa ternura de pobres criaturas, apenas necessitadas da Sua Infinita Misericórdia.

          Mas, com mais razão ainda, esquecendo-nos de nós mesmos, com tudo quanto nos diz respeito e tudo quanto por Ele Mesmo foi criado, admirados ou maravilhosos com o possuir o Imenso e o Eterno, abstraindo ou esquecendo-nos de todas as sombras e imagens, preferimos perder-nos no “Seio do Pai”. Contemplar o mistério da Sua Vida, mergulhar no abismo das razões pelas quais criou o mundo e lhe dirige ou governa a história. Na inefável intimidade com Ele, no Verbo feito carne e pão, preferimos adorar, calar, gozar.

          E tudo isto, antes que nos levantemos da Sua “mesa”, para retomar o caminho, neste desolado deserto da vida.

 






 
 
 

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