COMUNIDADES DE VIDA E ORAÇÃO - Vigiai, porque não sabeis a hora em que virá o Senhor (Mateus 24,42)
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05/03/2012
PERDEMOS A NOÇÃO DO QUE É PECADO
O engano próprio e a Lei de Deus
 
Alguns padres, bastante perplexos, colocaram-me a questão: “O que devo fazer quando pessoas vêm ao confessionário dizendo que não têm o que confessar?”... Muitas explicações têm sido dadas para justificar por que as filas de confissão se tornaram tão pequenas... perdemos a consciência de que pecamos diariamente...

Por que “boas pessoas” precisam se confessar regularmente? Vou focalizar aqui uma única razão: para descobrirem que são pecadoras. De forma simples: o sacramento oferece uma ocasião e um estímulo para descobrirmos a verdade profunda de que somos pecadores... A penitência é o sacramento da honestidade.


O engano próprio

São João aborda este tema de forma excepcionalmente clara: “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos e a verdade não está em nós. Se confessarmos nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar” (1Jo 1,8-9). Minha tese é que nós, “boas pessoas”, precisamos do sacramento da penitência para superarmos o engano próprio... O auto-engano é um jeito inteligente de evitar a culpa.

Um truque que usamos para cometer pecados ordinários é focalizar em algo bom que estejamos fazendo, afastando da nossa percepção qualquer mal presente... Em outras palavras, nossas mentes criativas podem criar “boas razões” para quase qualquer ato que queiramos fazer... Raramente dizemos para nós mesmos: “Isto está errado, é egoísta e injusto, mas vou fazer”. Ao contrário... encontramos “razões” que dão suporte ao que queremos fazer... Este processo vem à tona quando somos confrontados explicitamente. Podemos, então, pensar de forma mais clara e ficarmos até sem jeito pela percepção da nossa falta de bom senso. Mas, se não formos confrontados nem pela nossa consciência nem pelas pessoas, nosso ato cai facilmente no esquecimento e perdemos a noção de pecado.

Para vencer nossa grande habilidade para o auto-engano nós, “boas pessoas”, precisamos nos confessar... Enquanto o engano próprio nos mantém enfermos, a honestidade cura. E, se o nosso desejo de não nos enxergarmos como pecadores alimenta a nossa habilidade para o auto-engano, o desejo de nos conhecermos como pecadores dignos de perdão nos leva ao autoconhecimento e conseqüentemente à libertação. Sentimo-nos suficientemente seguros para trazermos nossos pecados à luz porque confiamos que Deus quer nos curar e não nos humilhar.


A consciência

Geralmente falamos em “consciência” como a reflexão que fazemos antes da ação. E, de fato, este é o primeiro conceito que temos da palavra... Mas há um outro significado para consciência ainda em voga: a consciência nos alerta retrospectivamente se aquilo que fizemos foi certo ou errado. Ela nos confirma ou nos incomoda...

Preparar-se para a confissão dá outra oportunidade para ver a consciência posterior em ação. Quando somos bem-sucedidos no auto-engano, não é provável que queiramos reexaminar o que já foi feito. Mas se formos pegos numa mentira, por exemplo, ou se ela vier à tona e ficarmos “queimados”, somos mais propensos a reconsiderar. No sacramento da penitência, temos outra oportunidade de sermos flagrados e de olharmos para o mal que causamos ao redor. Nosso critério não será mais se nos demos bem tentando o que queríamos. Confiantes de que Deus já sabe de todos os nossos pecados e mesmo assim nos convida para o sacramento da reconciliação, não precisamos temer sermos pegos e punidos. Ao contrário, somos mais livres para sermos honestos conosco mesmos por causa da promessa que Deus vai explicitamente perdoar tudo aquilo que confessarmos. Qualquer ato de humildade que fizermos nesta situação nos elevará.

Jesus condena o fariseu que confiava na sua própria justiça (Lc 18,9-14). O fariseu honestamente confessa os pecados que não comete. E também verdadeiramente relembra as virtudes e boas ações que faz. Chega a agradecer a Deus pela boa pessoa que ele é. Em contraste, o coletor de impostos reconhece sua pecaminosidade. E é o culpado coletor de impostos que sai justificado.
Muitos de nós, “boas pessoas”, somos mais parecidos com o fariseu do que com o coletor de impostos, porque muito naturalmente olhamos para nós mesmos como pessoas generosas e honestas, gratas a Deus pelo próprio sucesso... Revestidos com o farisaico engano próprio de que somos bons, precisamos da confissão como uma oportunidade de sermos encontrados e resgatados.

Em vez de vagamente nos acusarmos como pecadores, nós católicos buscamos listas de categorias de pecados, isso porque temos uma mentalidade sacramental. Mas há pelo menos três áreas para nos auto-analisarmos.


A Lei de Deus


Na primeira área nos avaliamos a partir de pecados mais comuns. A lista de pecados existente em livros antigos de oração era de grande valia. Perguntava-nos se tínhamos feito comentários maledicentes, se tínhamos enganado, tido pensamentos impuros, se nos negáramos a perdoar, se tínhamos mentido, sentido inveja, etc. Todos nos reconhecíamos em algum lugar da lista.

Mas estas listas cobriam somente o lado negro da lua e muitas vezes seu lado claro também está sem vida. O propósito subjacente da lista de pecados assim como a lista dos Dez Mandamentos não é somente proibir certos atos, mas promover o bem contido em cada mandamento. Um amigo me convidou uma vez para ir ao topo de uma montanha. Lá vi dois avisos. Ao lado de um caminho muito perigoso podia-se ler: “Mantenha-se na estrada ou você pode se ferir”. Isto é uma clara proibição. Havia, porém, um outro sinal perto deste que dizia: “Cuidado com as flores, para que também outros possam vê-las”. O primeiro sinal evita um acidente, o segundo protege e perpetua o bem.

Mesmo se jamais tivéssemos feito algo errado, teríamos ainda muito o que caminhar para cumprir os aspectos positivos dos mandamentos. Por exemplo, o quinto mandamento nos diz “não matarás” ... neste mandamento também está implícito que somos responsáveis por manter as pessoas vivas. Agora, algum de nós tem coragem de dizer que já fez o suficiente para ajudar os bilhões de seres humanos que estão famintos neste exato momento? ... Como o filósofo Peter Singer argumenta, sentiríamo-nos culpados se víssemos uma criança se afogando e não a ajudássemos; mas diariamente vamos levando a vida normalmente sem sequer notar que milhões de crianças morrem todo ano. Se nos importássemos nós, “bons” cristãos, tomaríamos consciência de que somos seriamente culpados por violar o quinto mandamento...

É óbvio que não podemos resolver o problema da pobreza. Mas quem de nós, diante destas necessidades tão gritantes, faz alguma coisa com a freqüência que deveria? O engano próprio nos resguarda destas questões e nos leva a não protegermos os outros.


Nosso crescimento

A segunda área para honestamente nos enfrentarmos é refletirmos sobre como temos crescido, exibindo nosso crescimento ou mesmo se estamos nos matando... Quando tentamos descobrir que tipo de pessoa estamos nos tornando, olhamos para nossas tendências, nossas disposições, hábitos, atitudes e emoções. Tendemos a fazer o bem, mas ele não flui com a espontaneidade devida. Tendemos a fazer o mal e podemos aceitá-lo como sendo “da natureza humana” ou simplesmente “aquilo que somos”...

Muitos de nós, “boas pessoas”, praticamos o engano próprio ao chamar nossos vícios de virtudes. Quando alguém gasta muito consigo mesmo, isso é egoísmo ou ostentação. Mas quando gastamos muito conosco mesmos, isso é uma sadia auto-estima.

Um outro truque que usamos é focalizarmos no bem que fazemos, enquanto escondemos as nossas não tão boas razões para o fazermos. Doamos, por exemplo, porque queremos que os outros – e é claro, nós mesmos – nos vejam como generosos. Um outro truque ainda é culparmos os outros por nossas próprias falhas...

Outra forma popular de engano próprio é permitir que nobres e bons pensamentos substituam ações concretas. Este truque é muito antigo. São João já dizia: “Filhinhos, não ameis por palavras, mas em atos e em verdade” (1Jo 3,18).

Deixar vir à luz o engano próprio é particularmente difícil, mas extremamente importante se quisermos chegar ao entendimento de que tipo de pessoa nos tornamos. Geralmente somos, no mínimo, parcialmente responsáveis por nossa cegueira e por escolhermos enxergar seletivamente... Ultrapassar o engano próprio significa também descobrir por que vejo como vejo.
Nós, “boas pessoas” precisamos do sacramento da honestidade para expor estes truques e cegueiras. Este sacramento insiste para que levemos para ele não somente nossas ações, mas nós mesmos. Não basta simplesmente apresentar ao confessor uma lista de deslizes e pedir absolvição. Ao contrário, estamos falando com um ser humano de carne e osso, cujo papel é demonstrar interesse por nós e não somente nos olhar como “fazedores de pecados”. Este tipo de encontro nos encoraja a focalizar naquilo que estamos nos tornando e nos pede para lidar com as questões em que temos “escorregado”. Sem dúvida, o exame de consciência, a confissão e o perdão de Deus podem acontecer também com um terapeuta ou com um amigo confidente. Mas o convite divino para uma profunda honestidade e a oferta divina de perdão gratuito são raramente tão explícitos nestes encontros como o são no sacramento da reconciliação.


Os relacionamentos

A terceira área a ser enfrentada são os nossos relacionamentos. Nossa vida moral começa e termina em relacionamentos. Em nossos papéis como amigo ou cidadão, como colega ou membro de uma família, nunca estamos mais do que relativamente adequados. Tive um paroquiano que sempre comentava eloqüentemente sobre seu relacionamento com um amigo. Eu tinha a impressão de que eles partilhavam praticamente tudo. Pouco tempo depois, fiquei sabendo que se encontravam uma vez por ano para irem a um jogo de basquete juntos. Isso não é o suficiente para que alguém seja chamado de melhor amigo. O engano próprio tanto esconde nossa percepção do quão inadequados podemos ser, como também nos impede de nos tornarmos mais adequados.

Mas, mais fundamentalmente do que qualquer outro aspecto, nós “boas pessoas” negligenciamos em maior ou menor grau naquele relacionamento básico da nossa existência, que é o relacionamento com Deus. Precisamos da confissão para que fique claro para nós mesmos que esquecemos Deus. Se nos encontrarmos na situação em que acreditamos não precisar deste sacramento, podemos ter a certeza de que esta apatia deve-se à falta de um vibrante e apaixonado amor por Deus. Se houvesse um relacionamento de amor movido pelo Espírito queimando em nossos corações, jamais estaríamos satisfeitos com um “esqueça o passado, deixa para lá, da próxima vez você faz melhor”. Na verdade, se fôssemos apaixonados por Deus, estaríamos inclinados a nos confessar duas ou três vezes por semana!

Os psicólogos nos ensinaram o quão importante é pensarmos positivamente sobre nossas ações e nós mesmos. Mas se isso for tudo o que fizermos, viveremos no engano. A confissão é uma oportunidade, um presente de Deus, para admitirmos para nós mesmos que também somos pecadores. O conhecimento prévio de que Deus nos perdoará nos liberta para a honestidade e a subseqüente experiência do perdão de Deus nos liberta para vivermos em honestidade.


Fonte: Revista America. Tradução: Elena Arreguy Sala




 
 
 

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