Cidadãos do Infinito




Sagrada Escritura
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04/09/2021
HOMILIA DIÁRIA - Sábado da 22.ª Semana do Tempo Comum (I)
Precisamos dar tempo a Deus! - Cristo é o Senhor do sábado: Ele tem direito a que lhe consagremos o nosso tempo; e nós, a necessidade de estar com Ele, em oração íntima e amorosa, porque não há amizade sem convivência nem investimento de tempo.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 6,1-5)

Num sábado, Jesus estava passando através de plantações de trigo. Seus discípulos arrancavam e comiam as espigas, debulhando-as com as mãos. Então alguns fariseus disseram: “Por que fazeis o que não é permitido em dia de sábado?”

Jesus respondeu-lhes: “Acaso vós não lestes o que Davi e seus companheiros fizeram, quando estavam sentindo fome? Davi entrou na casa de Deus, pegou dos pães oferecidos a Deus e os comeu, e ainda por cima os deu a seus companheiros. No entanto, só os sacerdotes podem comer desses pães”. E Jesus acrescentou: “O Filho do Homem é senhor também do sábado”.

 

I. Reflexão

No Evangelho de hoje, Jesus entra em controvérsia por causa do sábado. Jesus passava por uma plantação de trigo, e os discípulos arrancavam e comiam espigas. Esse tipo de trabalho era totalmente proibido no dia de sábado. Primeiro, é importante recordar como os judeus ainda hoje observam o sábado. É uma situação bem diferente da nossa. Nós, católicos, observamos o descanso de domingo como uma realidade voltada para a essência do que Deus criou, isto é, para termos tempo que dedicar ao culto divino. Nosso Senhor, no Antigo Testamento, instituiu um dia da semana para que tivéssemos mais tempo para nos dedicar à oração, a Deus, ao culto divino etc. Por quê? Porque isso é o que nos leva para a felicidade. Como recorda São Bernardo, Deus quer ser amado porque sabe que serão felizes aqueles que o amarem.

No entanto, apesar de Deus, no Antigo Testamento, ter instituído isso como núcleo e essência do sábado (ou seja, como um tempo para servi-lo e amá-lo), os judeus transformaram a observância sabática numa realidade meramente externa. Ainda hoje, os judeus observam o repouso do sábado como se isso, só, fosse a essência do preceito, o elemento mais importante. Para se ter uma ideia, os judeus levam tão a sério a obrigação de não trabalhar aos sábados, que ainda hoje, toda sexta-feira à tarde, antes que apareça a primeira estrela e comece o sábado, o shabat, a dona de casa vai aos cômodos e apaga as luzes que deverão ficar apagadas e acende as que deverão ficar acesas. Por quê? Porque durante o sábado não é permitido acionar um botão sequer! Não é permitido ligar ou desligar uma lâmpada. Hoje, em Israel, os elevadores dos prédios são programados para, no sábado, parar em todos os andares. Por quê? Porque quem entra no elevador não pode acionar botão algum, pois isso seria um “trabalho”... De fato, para os judeus, é muito importante o “deixar de trabalhar” aos sábados.

Porém, nós sabemos que isso é uma perversão da essência do preceito desejado por Deus no Antigo Testamento, a qual só ficou mais clara no Novo graças à atitude de Jesus: o sábado foi feito para o homem, ou seja, o tempo de descanso, essa paz sabática que nós, católicos, observamos no domingo (por ser o dia da ressurreição do Senhor), é voltado para o culto amoroso de Deus, única fonte de nossa felicidade. Ora, quem ama a Deus precisa dedicar tempo a Ele. É uma das coisas em que pouca gente pára para pensar. Se alguém ama a Deus, precisa dedicar tempo a Ele. Por quê? Porque o amor de Deus não vai crescer magicamente no coração de ninguém. Quem em são juízo, esquecido de Deus o dia inteiro, sem pensar nele em momento algum, sem dedicar tempo para amá-lo e servi-lo, pensaria ter chances de tornar-se um grande santo?… Bobagem! Ninguém pense que vai ser santo sem rezar, e rezar muito. É preciso ter tempo para estar com Deus, como Maria de Betânia aos pés de Jesus. Precisamos reservar um tempo para sair da agitação. Isso é parte de nossa saúde espiritual.

Ora, a Igreja, muito consciente disso, estabeleceu o preceito dominical. Como então devemos observar o terceiro Mandamento? O terceiro Mandamento, guardar domingos e festas, nos dá o núcleo do que Deus estabelecera no Antigo Testamento, mas que depois foi especificado aos poucos pela Igreja. Este núcleo, expressão da própria lei natural, consiste em dedicar a Deus tempo de oração, de louvor, de culto. Isso independe de qualquer determinação técnica, de leis positivas; na verdade, é parte do ser mesmo das coisas. Os seres humanos precisamos dedicar tempo a Deus. Sem relacionamento com Ele, nunca seremos felizes, nunca encontraremos a paz. Por isso a Igreja resolveu determinar algumas coisas.

No Antigo Testamento, o dia de repouso era sábado. Por quê? Porque era uma espécie de celebração dos bens que Deus nos concedia pela criação. Deus criou o mundo em seis dias e no sétimo descansou; então, para louvar a Deus pelos dons da criação, os judeus respeitavam o sábado, sétimo dia da semana. No entanto, o pecado do homem como que “quebrou” o projeto de Deus, que por misericórdia quis nos redimir. Estamos agora no Novo Testamento: Deus veio morrer na cruz por nós, a fim de nos devolver o que Adão e Eva perderam no princípio. É por isso que a Igreja celebra agora o domingo, a κυριακή, o dia do Senhor, de sua gloriosa ressurreição, uma espécie de oitavo dia. Sim, Deus criou o mundo em seis dias e no sétimo descansou; mas, com o pecado do homem, Deus saiu de seu descanso e veio nos buscar e redimir: é o oitavo dia, o dia da redenção. Eis o que celebramos todo domingo, misticamente falando.

Pois bem, como na prática podemos observar esse Mandamento? Em primeiríssimo lugar, a Igreja pede que nos abstenhamos de trabalhos. Trabalho braçal não deve ser feito no domingo. Também devemos nos abster de atividades comerciais, a menos que se trate de coisas necessárias e urgentes. Mas para que nós devemos cessar o trabalho e o comércio? Não percamos de vista a finalidade: para estar com Deus. Vivamos de fato o domingo com o espírito do que pretende a verdadeira lei: estar com Deus, dar mais tempo ao Senhor, conhecer as coisas do céu, ouvir palestras, meditações, ler livros, servir a Cristo visitando-o nos doentes, nos enfermos, nos anciãos etc. O domingo é um dia especial para prestar culto e dar amor a Deus, sobretudo pela oração e a participação na santa Missa. Que daqui em diante os nossos domingos sejam o que Deus tanto deseja com eles: ver-nos felizes na obediência à sua lei e no louvor de sua glória.

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